Hector Othon Não te amo apenas quando sorris. Amo-te porque existes. A tua existência, por si só, já é bênção — como se o universo tivesse sussurrado um sim e dele tivesse nascido tua presença no mundo. Sou feliz, profundamente feliz, por testemunhar teu caminho, teu fluxo, tua metamorfose silenciosa, como quem contempla uma estrela que aprende a brilhar sem pedir licença à noite. Vejo-te radiante, bela, viva — mas também te vejo quando atravessas teus labirintos, quando tuas sombras te envolvem e parecem querer prender tuas asas. E confesso: há uma beleza sagrada nisso. Porque mesmo quando cais, há em ti uma força secreta que se ergue, como heroína antiga que renasce das próprias cinzas do impossível. E então… quando te abres — ah, quando te abres — és flor, és abrigo, és aurora. Teu amor acolhe, reconhece, desperta. Há algo em ti que faz o outro sentir que finalmente foi visto, que finalmente foi amado, que finalmente pode respirar sem armadura. Por isso ce...
É de graça, sim, meu filho... A natureza nos dá tudo. Tudo mesmo. Sem cobrar boleto, sem exigir recibo, sem contratos assinados. Ela apenas oferece. A tangerina que nasce na árvore e cai madura na palma da mão, o vento que refresca a tarde quente, a sombra que acolhe, a água que escorre pura do ventre da terra, a flor que desabrocha só porque é primavera — tudo isso é presente. Um presente de amor. Outro dia, a amiga contou: seu sobrinho, um menino encantado, colheu sua primeira tangerina direto da árvore. Surpreso, olhou com olhos grandes e perguntou: — É de graça? Sim, é de graça. A generosidade da Mãe Terra é assim. Ela não negocia, ela doa. Mas, meu filho, escuta bem: para que continue sendo assim, temos que retribuir com respeito, com cuidado, com presença. Eu, aos 68 anos, posso dizer: comprovei essa verdade. Vivo cercado de verde e de bichos. Planto em terras que não são minhas, semeio em cantinhos esquecidos, ajudo a regenerar o que foi ferido — e a vida sempre m...
Hector Othon No começo, ele fugia. Sempre que o medo batia à porta, abria janelas, ligava vozes, inventava tarefas, enchia os dias de ruídos como quem espalha luz artificial para não perceber a noite. Chamava gente. Buscava risos. Organizava urgências. Mas o medo — paciente — sentava-se no fundo do quarto esperando que o silêncio voltasse. E voltava. Porque o medo não se cansa. Ele não persegue. Ele permanece. Houve noites em que ele sentiu um peso sem nome sobre o peito, como se o invisível respirasse perto. E então corria outra vez — mais conversas, mais planos, mais distrações — até que o cansaço de fugir ficou maior que o próprio medo. Foi nesse dia que algo mudou de lugar dentro dele. Ele não correu. Não chamou ninguém. Não abriu portas. Sentou. E pela primeira vez olhou o medo nos olhos. Não era monstro. Era espelho. O tremor virou escuta. O pânico virou pergunta. A sombra virou passagem. E o véu — aquele véu antigo que cobria o sentido da vi...
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