O Último Véu
Hector Othon
No começo, ele fugia.
Sempre que o medo batia à porta,
abria janelas, ligava vozes, inventava tarefas,
enchia os dias de ruídos
como quem espalha luz artificial
para não perceber a noite.
Chamava gente.
Buscava risos.
Organizava urgências.
Mas o medo — paciente —
sentava-se no fundo do quarto
esperando que o silêncio voltasse.
E voltava.
Porque o medo não se cansa.
Ele não persegue.
Ele permanece.
Houve noites em que ele sentiu
um peso sem nome sobre o peito,
como se o invisível respirasse perto.
E então corria outra vez —
mais conversas, mais planos, mais distrações —
até que o cansaço de fugir
ficou maior que o próprio medo.
Foi nesse dia
que algo mudou de lugar dentro dele.
Ele não correu.
Não chamou ninguém.
Não abriu portas.
Sentou.
E pela primeira vez
olhou o medo nos olhos.
Não era monstro.
Era espelho.
O tremor virou escuta.
O pânico virou pergunta.
A sombra virou passagem.
E o véu —
aquele véu antigo que cobria o sentido da vida —
começou a se desfazer como névoa ao sol.
Então ele viu:
por trás do medo
não havia abismo,
havia imensidão.
E na imensidão
não havia ameaça,
havia um desenho secreto
onde cada dor era semente,
cada perda era portal,
cada silêncio era útero de luz.
Desde então, quando o medo retorna
— porque ele sempre retorna —
ele não foge.
Ele escuta.
Pois descobriu
que o medo é apenas o último guardião
antes do amor.
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