Monólogo Antes de Acordar
Hector Othon
Estou aqui, como todos.
Cada um em seu canto,
sozinho,
brincando de estar junto.
E quando a peça enlouquece, tudo arrebenta.
Precisamos que o outro seja firme,
que sustente o mundo,
que corresponda às expectativas indizíveis
que projetamos sobre ele.
Mas… e se descobrem que sou uma fraude?
E se percebem que também estou quebrado,
cansado,
tentando apenas atravessar?
Estou aqui sozinho.
Não tenho para quem ligar.
Muitos me conhecem,
mas quase ninguém suportaria o peso real da minha queda.
Posso cair em silêncio,
e talvez nem valha a pena gritar.
Que estranha miséria é depender…
Sentir que existir exige interromper a vida de alguém,
fazer outra pessoa perder tempo conosco.
Estudei tanto.
Atravessei religiões, filosofias, práticas, caminhos.
Procurei Deus em nomes diferentes,
em templos, livros, símbolos e disciplinas.
Mas desde que entrei na inutilidade,
só sofro.
Ando daqui para lá,
e o medo é radical.
E quando alguma voz se manifesta,
não traz consolo —
apenas negatividade, condenação, recriminação.
Como juízes invisíveis sentados em minhas feridas.
Vou entrar na rede.
Ver notícias.
Deixar o tempo escorrer pelos dedos,
nas desgraças das personagens.
Será que devo tomar banho?
Banho para quê?
Não estou sentindo cheiro ruim.
Estou bem assim.
E comer?
Comer?
não vou comer, isso me evita ter que cagar
Tenho preguiça de tudo.
O que diz a minha voz interior?
Silenciar…
Muitos acham que enlouqueci.
Mas não enlouqueci.
É que, antes do verdadeiro silêncio,
alguma coisa precisa apagar.
acontece esse desfile interminável de ruídos,
besteiras, medos, frases partidas —
uma mente tentando explicar, justificar, encontrar sentido,
enquanto lentamente perde a força de continuar fingindo
de que sei me comportar.
Talvez seja isso.
Talvez seja apenas o corredor escuro
antes de uma consciência nascer sem máscaras.
E a verdade florescer no coração.
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