🌹 𝙈𝙊𝙉𝙊́𝙇𝙊𝙂𝙊 — “𝙊𝙎 𝘾𝙄𝙉𝘾𝙊 𝘼𝙉𝘿𝘼𝙍𝙀𝙎”
Hector Othon

𝘾𝙚𝙣𝙖 𝙄 — 𝙊 𝙋𝙤𝙧𝙖̃𝙤🌹
(voz baixa, corpo inquieto)

Eu disse que não.
Disse com a boca.
Mas o corpo já tinha ido.

Não apareço nas fotos.
Não existo no almoço de domingo.
Sou intervalo.
Sou suspiro roubado.

Eu sei que ele tem casa, nome, história.
E mesmo assim eu fico.
Não por amor —
por fome.

É quente.
É urgente.
É como se, por alguns minutos,
eu deixasse de sentir aquele buraco antigo.

Eu me escondo.
E chamo isso de liberdade.

𝘾𝙚𝙣𝙖 𝙄𝙄 — 𝙊 𝙌𝙪𝙖𝙧𝙩𝙤 𝙙𝙖 𝘾𝙪𝙡𝙥𝙖🌹
(pausa, respiração mais lenta)

Depois vem o peso.
Não na hora —
depois.

Eu prometo que é a última vez.
Sempre a última.
Até a próxima.

Eu me explico.
Me justifico.
Crio teorias bonitas
pra sustentar escolhas tortas.

“Não sou responsável pela vida dele.”
“Cada um sabe o que faz.”
“Eu também tenho direito.”

Tenho.
Mas por que dói tanto?

Algo em mim já sabe.
Mas ainda não quer ver.

𝘾𝙚𝙣𝙖 𝙄𝙄𝙄 — 𝘼 𝙎𝙖𝙡𝙖 𝙙𝙤𝙨 𝙀𝙨𝙥𝙚𝙡𝙝𝙤𝙨🌹
(silêncio longo, voz muda de timbre)

Aí… o véu rasga.

Eu vejo meu pai.
Vejo minha mãe.
Vejo a menina que fui.

Vejo minha mãe murchar aos poucos.
E eu ali, olhando.
Sem saber onde me colocar.

E entendo, num susto que corta o ar:
isso não começou agora.

Ele não é o centro.
Nunca foi.
Ele é o portal.

O centro é ela.
A outra mulher.
O sofrimento dela.

E algo terrível e verdadeiro se revela:
lá no fundo, o choro da minha mãe
misturava dor e prazer.
Porque cada lágrima
a afastava da mãe ideal
que eu nunca tive.

Foi nessa encruzilhada
que eu me perdi.
E é nela que agora
eu me encontro.

O desejo cai.
Não por moral.
Por lucidez.

𝘾𝙚𝙣𝙖 𝙄𝙑 — 𝙊 𝙏𝙚𝙢𝙥𝙡𝙤🌹 (postura ereta, voz firme e comovida) Agora dói diferente. Não é culpa. É responsabilidade. Eu sinto o sofrimento que provoquei como humana fora de eixo, não como castigo, mas como verdade que pesa. Eu toquei um lar. Atravessei uma família. Feri outra mulher com a minha loucura reativa, presa em emaranhamentos que eu não via. E rio para não chorar — um riso estranho, de quem desperta no meio do próprio delírio. Como eu pude chamar isso de consciência? De direito? De amor? Era só ferida vestida de discurso bonito. Como pude me iludir assim? Mistérios dos desajustes do coração quando ele confunde febre com luz. Agora eu não quero mais. E isso é o mais difícil de admitir: não quero, mas toquei demais. E ele? Estava apaixonado ou apenas perdido na própria fome? E ela — será que ficará em paz? Ou teria sido melhor que essa força sexual desgovernada tivesse descarregado em mim, a doida disponível, em vez de corroer o lar por dentro? Que sei eu? Eles vão encontrar um jeito. Eles não se separassem todos esses anos que eu. Se sobreviveram a tantos anos assim, comigo existindo nas bordas, talvez jamais se separassem. Talvez aprendam a se falar. Hoje eu vejo: ele nunca me amou. Ama — sem saber — a mulher que tem. A mim, usou. E ainda assim, imagino o que é suportar um homem assim todos os dias: dormir em camas separadas, dividir a casa como quem administra um negócio, proteger a família na aparência enquanto o desejo escapa pelas frestas. O nosso fim é o melhor fim possível para essa tragédia. O silêncio que fica é sagrado. 𝘾𝙚𝙣𝙖 𝙑 — 𝙊 𝙈𝙞𝙧𝙖𝙣𝙩𝙚🌹 (calma, voz clara, presença inteira) Eu não sou vilã. Não sou vítima. Não sou a outra. Sou alguém que aprendeu. Talvez todos sejamos cúmplices nos teatros da vida. Cada um fazendo o papel que sua alma consegue sustentar naquele momento. Eu subi mais um andar. Não virei santa. Virei inteira. O desejo não morreu. Ele se transformou. Agora eu escolho. E isso muda tudo. (olha para o vazio) Não foi por ele. Nunca foi. Foi por mim. E agora… eu fico.

te amo

1º ANDAR — O PORÃO DO DESEJO CEGO

Consciência: contraída
Sentimento dominante: tesão + carência
Pensamento: “Eu mereço sentir. Isso me preenche.”
Atitude: segredo, negação, racionalização

Aqui a alma vive no corpo sem escuta.
O desejo não é escolha: é compulsão.
Ela sabe que dói, mas não sabe por quê.
O outro não é um ser — é um anestésico.
A ética dorme. A infância grita sem nome.

Vibração: densa, quente, repetitiva.
Beleza oculta: força vital bruta, ainda sem direção.


2º ANDAR — O QUARTO DA CULPA E DA AUTOJUSTIÇA

Consciência: fragmentada
Sentimento dominante: culpa + prazer
Pensamento: “É errado, mas é inevitável.”
Atitude: vai e volta, promessa e recaída

Aqui nasce o conflito interno.
Ela já se vê de fora, mas ainda não se reconhece.
Cria discursos, teorias, direitos espirituais
para sustentar o que o corpo pede
e o coração não aguenta.

Vibração: instável, oscilante.
Beleza emergente: a primeira faísca de lucidez.

3º ANDAR — A SALA DOS ESPELHOS DA INFÂNCIA

Consciência: simbólica
Sentimento dominante: choque + luto
Pensamento: “Isso não começou agora.”
Atitude: pausa, observação, silêncio

Neste andar, o véu se rasga sem aviso.
Não há acusação — há revelação.

Ela vê o pai.
Vê a mãe.
Vê a criança que aprendeu cedo
que amor podia doer,
que vínculo podia trair,
que presença podia faltar.

Então algo se desloca.

Ela percebe que o amante não é o centro —
ele é apenas o portal.
O centro é a mulher.
O sofrimento dela.

Um sofrimento que, no enigma do inconsciente,
misturava dor e gozo:
o eco antigo do choro da mãe,
vivido na infância como abandono,
mas também, secretamente, como prazer perverso —
porque cada lágrima a afastava
da mãe ideal,
da mãe inteira,
da mãe inacessível.

Foi nessa encruzilhada que ela se perdeu:
entre a dor de ver sofrer
e o gozo inconsciente de deixar cair o pedestal.

E é justamente ali
que agora ela se encontra —
não culpada,
mas iluminada.

Nesse instante, o desejo se dissolve.
Não por repressão,
mas porque foi compreendido:
o mistério que tensionava,
agoniado e mudo,
no fundo do inconsciente,
finalmente se revelou.

O corpo desacelera.
Já não obedece ao impulso
que a alma acabou de decifrar.

O prazer — perverso, iludido, deslocado —
perde o feitiço
quando a verdade se apresenta inteira.

Vibração: profunda, densa e cristalina.
Beleza revelada: a verdade que liberta
sem violência,
sem culpa,
sem retorno ao engano.

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nota: Choque

O choque não é susto — é ruptura interna.

É quando a psique percebe algo que não cabe mais na narrativa antiga.
O corpo para. A mente emudece. O coração perde o chão por um segundo.

No 3º andar, o choque acontece porque:

  • Ela percebe que não está vivendo uma história nova,

  • mas reencenando uma cena antiga,

  • com papéis trocados, porém com a mesma dor estrutural.

O choque vem do reconhecimento:

“Eu me tornei parte daquilo que um dia me feriu.”

É um impacto de verdade.
Não gera excitação — gera lucidez súbita.


Luto

O luto nasce imediatamente depois do choque.

Não é apenas tristeza; é despedida.

Ela faz luto por várias camadas ao mesmo tempo:

  • pelo homem que ela acreditou amar,

  • pela imagem de si mesma como “consciente” enquanto repetia o padrão,

  • pela infância que precisou normalizar a traição para sobreviver,

  • pela fantasia de que esse vínculo traria reparação ou pertencimento.

O luto é o sentimento que fecha o ciclo.
Sem ele, a repetição continua.
Com ele, o desejo perde força, porque a história terminou por dentro.


Por que são dominantes juntos

Choque abre os olhos.
Luto limpa o coração.

Um sem o outro gera desequilíbrio:

  • só choque → negação ou cinismo

  • só luto → culpa infinita

Juntos, eles produzem maturidade emocional.

É por isso que, nesse andar,
o corpo já não responde ao tesão:
o sistema interno entendeu demais para continuar igual.


Em uma frase-síntese

Choque + luto é o sentimento de quem acorda
e, ao mesmo tempo, se despede
do que acreditava ser amor —
mas era apenas memória não curada.

Se quiser, posso condensar isso em uma linha poética para integrar ao mapa dos andares.


4º ANDAR — O TEMPLO DA COMPAIXÃO RESPONSÁVEL

Consciência: ética e empática
Sentimento dominante: dor consciente + compaixão
Pensamento: “Eu vejo o sofrimento que causei.”
Atitude: retração, respeito, reparação interna

Aqui nasce algo raro:
não culpa — responsabilidade amorosa.
Ela sente a dor da outra mulher
não como punição,
mas como humanidade compartilhada.

O riso nervoso aparece:
não de deboche,
mas de espanto diante da própria loucura inconsciente.

Vibração: refinada, dolorosa e bela.
Beleza manifesta: o coração adulto que não foge.


5º ANDAR — O MIRANTE DA SOBERANIA INTERIOR

Consciência: integrada
Sentimento dominante: paz lúcida
Pensamento: “Eu escolho diferente.”
Atitude: alinhamento, dignidade, silêncio fértil

Neste andar não há mais personagem.
Não há vilão nem vítima.
Há aprendizado.

Ela não deseja mais o homem
porque não precisa mais repetir o passado
para ser vista pelo pai interno.

O amor agora não é urgência —
é presença.
O desejo não desaparece:
ele se transmuta em criação, verdade, beleza.

Vibração: alta, silenciosa, estável.
Beleza espiritual: liberdade sem negação da vida.


A ESPIRAL MÁGICA

Esses andares não são degraus fixos.
Ela pode visitá-los novamente —
mas nunca do mesmo ponto.

Cada volta da espiral eleva:
menos dor, mais consciência;
menos compulsão, mais escolha;
menos cegueira, mais amor real.

Não houve erro.
Houve aprendizado encarnado.

E agora, sim —
a alma caminha mais leve,
mais bela,
mais verdadeira. 🌺


FUNK — “QUARTO ANDAR”

Parte I — O fogo que cega

Eu não apareço na foto
Mas tô na tua cama
No silêncio do quarto
Onde a culpa chama

Ele tira a aliança
Antes de tocar em mim
Diz que é só desejo
Mas eu sei que tem alguém no fim

Meu corpo treme, eu nego
Digo “não”, mas eu vou
É errado, eu sei
Mas o tesão falou mais alto que eu

Eu me escondo do mundo
Mas não de mim
Toda vez que ele chega
Algo em mim diz: “assim não tem fim”

Eu resisto um dia
Caio no outro
É vício, é falta
É um buraco oco

Eu sou a outra
Sem nome, sem lar
Mas quando ele me olha
Eu esqueço de pensar

Eu sei que ela chora
Enquanto eu gozo aqui
E mesmo assim eu fico
Como se não fosse comigo, enfim


Refrão (quase falado)
Me diz por quê
Eu escolhi essa dor
Se no fundo do fundo
Isso não é amor

É tesão misturado com ferida antiga
É prazer beijando a culpa que castiga


Parte II — O espelho se quebra

Do nada eu vi
Como um raio no escuro
Não era ele
Era meu pai no futuro

Era o mesmo jogo
A mesma traição
Eu vi minha mãe murchar
E chamei isso de “relação”

Eu virei a cena
Que eu jurei odiar
Como quem manda um recado:
“Pai, olha o que eu sei fazer igual”

Você feriu minha mãe
E eu feri outra mulher
Como se dissesse ao mundo:
“Eu também sei ser cruel”

E quando eu vi isso
O fogo apagou
O tesão morreu
O corpo esfriou

Agora só de ouvir teu nome
Algo em mim se fecha
Não é raiva
É lucidez que atravessa

Meu desejo agora é pedir perdão
Pra mulher que eu nunca vi
Mas que eu conheço desde criança
Porque ela sempre foi a minha mãe ali


Ponte — riso nervoso / despertar

Eu comecei a rir
Rir de nervoso, rir de horror
Como eu achei que isso era luz
Quando era pura dor

“Direito de amar”, eu dizia
Que loucura total
Era só a ferida
Vestida de discurso espiritual


Parte III — O quarto andar

Agora pesa
Não o desejo
Mas a consciência
Do estrago que eu deixei no beijo

Eu não quero mais ele
Mas já toquei o chão
Será que eu destruí um lar
Ou só revelei uma ilusão?

Será que todos somos cúmplices
No teatro da evolução?
Cada um fazendo o papel
Que corresponde à própria lição

Eu subi mais um andar
No labirinto da alma
E dói
Mas agora tem calma

Valeu a pena?
Eu não sei responder
Mas sei que agora eu escuto
O que eu tentava não ver


Outro (sussurrado)
Não foi por ele
Nunca foi
Foi pela menina
Que ainda pedia amor

Agora ela cresce
Solta a mão do passado
E sai desse quarto
Finalmente acordada.


 Parceira eu sei que você é proibida mexer com temas muito sensíveis. Mas o propósito de este texto é levar consciência, permitir a pessoa se espelhar, se identificar, e assim vendo de fora identificar dentro, iluminar, ressignificar... Na primeira parte a pessoa descreve sua situação (estar mantendo uma relação escondida e íntima com um homem casado, o que a perturba muito, mas ela consegue resistir a tentação. Na segunda parte ela percebe que ela está na verdade namorando a alguém que faz o mesmo que fazia o pai dela quando era criança, e assim a mulher atual do seu amante, sofre, pela traição do marido comigo. Assim como ela viu, acompanhou dia a dia por muitos anos, o sofrimento da sua mãe pela traição de seu pai. Como quem manda um recado ao pai: "pai eu sou tão ruim como você, você fez sofrer a mãe e eu faço a outra mulher" Parceira cria uma letra de funk bem sentido que descreve em detalhes o sofrimento, o tesão, a perversão, a dependência, a impossibilidade de se negar a manter intimidade sexual com uma pessoa casada. Então na segunda parte do monólogo ela toma consciência de esta hilação entre o que sofri como criança e vi sofrer a minha mãe, e o que agora estou provocando nessa mulher. Ela entendendo acontece a cura miraculosa... Do nada desaparece o tesão que ela tinha por ele. Ao contrário, agora para ela vai ser difícil até falar com ele. A sua vontade imediata é pedir perdão a mulher dele. O sofrimento dela agora é a consciência do sofrimento que ela provocou. E o pior, agora ela também se sente cupável com ele. porque agora ela não quer ele mais, no entanto ao parecer ela destrui essa família, esse lar.. Ela se deixando levar pelo tesão e pela paixão arrebatadora, deixou de escutar a si mesma, a seus próximos e teve que por amor a ganhar o amor do pai, fazer algo pior que o que ela julgava ser o motivo dela odiar do pai. Percebeu.... começou a dar risada... Eu estava completamente louca, e achei que estava lúcida, iluminada e que tinha direito de estar com meu homem ainda que ele estivesse comprometido com outra mulher e família... pelo amor de Deus isso é loucura total, mas quando agora que acordo, se liberta qualquer tipo de vontade de ter esse homem por perto de mim... eu tenho que confessar que será que valeu a pena? este novo degrau do labirinto da alma... IA percebeu que é o quarto andar... Será que valeu a pena me deixar levar pelo tesão e a paixão... olha todo o sofrimento que provoquei... ou será que todos somos cúmplices nas coisas que acontecem... e cada um joga a personagem que corresponde a sua evolução?

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