A consulta mas estranha que já tive
A Consulta Mais Estranha da Minha Vida
Era uma terça-feira cinzenta quando recebi a mensagem de voz. O ícone do WhatsApp piscava como um olho inquieto. Ao aceitar a chamada, deparo-me com uma imagem desfocada, cores borradas como um aquário sob a luz do entardecer. Uma voz surgiu, não como quem fala, mas como quem derrama sons: "Vamos nos falar por voz e escrita..."
Não havia introdução, nem “olá”, nem contexto — apenas uma voz que parecia ecoar de um lugar onde o tempo não seguia nenhuma lógica linear. O nome no WhatsApp era apenas “Lua Solta”, e sua foto de perfil, um gato preto de olhos amendoados encarando a câmera com ar de quem sabe demais.
A mensagem vocal veio como um raio:
“Me fala que é o que se passa comigo o que fazer? Tudo é a mesma coisa. Quero encontrar alguém, já encontrei, foi bom... Mas que faz essa pessoa aí? Cansei de namorar. É o mesmo que cagar: na hora é gostoso, mas quando termina, termina... Porque o pós-namoro dura tanto?”
Pausei. Respirei. Aquela fala era um turbilhão de impressões, um espelho quebrado refletindo pedaços de uma alma alucinada em seus próprios ciclos.
Ele continuou, sem esperar minha resposta:
“Eu não tenho paciência com nada. Ainda não fui e já estou voltando. Quer dizer, indo? Voltando? Melhor fico aqui, que é, na verdade, o fim... Astrólogo, olha aí meu céu e me fala...”
Perguntei a data de nascimento: hora, dia, mês, ano, cidade.
Sua resposta foi um poema surreal:
“Com certeza foi um dia daqueles. A hora? Um pedaço de 60. O ano? Igual a todos. E a cidade... ainda estou buscando. (Pausa) Me fala aí: já estava escrito nas estrelas?”
Decidi entrar na dança caótica dele. Respondi o que senti na hora:
“Sim. Está escrito.”
Fez-se um silêncio digital. Imaginei-o do outro lado, talvez em um quarto desarrumado, com paredes cobertas de pôsteres de bandas dos anos 80 e incenso queimando em um pires. Ouvi sons de objetos se movendo — talheres, livros caindo, passos rápidos. Várias exclamações abafadas, como alguém conversando com fantasmas. E então, novamente, o silêncio.
De repente, ele retornou:
“Eu sabia, eu sabia... É isso, grato. Quanto te devo?”
Surpreendi-me. Nunca havia tive uma consulta tão breve — e tão surreal.
“Não deve nada”, digitei.
Sua resposta veio rápida, como um feitiço lançado ao vento:
“Vou te dar um presente, quer?”
“Que presente?”, respondi, jogando seu jogo.
E então, as palavras apareceram escritas na tela, e senti um arrepio percorrer minha espinha:
“Já coloquei em teu interior o Sol e os planetas.”
Fiquei paralisado. Havia algo naquelas palavras — uma estranha poesia, uma verdade escondida sob a aparente desconexão. Era como se ele não estivesse me dando um presente, mas lembrando-me de algo que eu já deveria saber.
“Grato”, respondi, sincero.
E ele desapareceu. Não houve “tchau”, não houve mais mensagens. Apenas o silêncio e a sensação de que, por alguns minutos, tinha conversado com um anjo caótico — ou um poeta iluminado que usava a linguagem do absurdo para falar verdades cósmicas.
Anos depois, ainda me pego pensando naquele homem. Seria um espírito brincalhão? Um mestre disfarçado de lunático? Ou apenas alguém tão ferido e tão sábio que sua fala só podia ser fragmentada?
Uma coisa sei: naquele dia, fiz mais do que uma consulta — recebi um lembrete de que a astrologia não é sobre mapas perfeitos, mas sobre encontrar beleza mesmo no caos. E que presentes invisíveis — como o Sol e os planetas colocados dentro de nós — são os que realmente importam.
Com um sorriso cósmico,
Hector Othon 🌌
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