🕳️ O Funeral do Eu

 🕳️ O Funeral do Eu

Imagem criação do artista Sergio Papi

Eles vêm de terno.
Todos.
Uniformizados em negro e azul-céu,
como se vestissem luto pela alma que enterram no primeiro dia útil da vida.

Rostos ocres, sem contorno,
olhos vazados pela luz branca do controle,
bocas costuradas pelo medo de ser estranho.
Carregam pastas invisíveis,
cheias de silêncio, metas e boletos.

São muitos — mas todos o mesmo.
Clonados por um sonho que não sonham,
programados para sentar, seguir, sorrir.
Alguns já nem respiram: processam ar.

Ali, no meio, um rosto mais marcado —
um lampejo de humanidade resiste ao afogamento.
Mas até ele usa a gravata como coleira.
A diferença está só no olhar:
um grito contido, querendo rasgar a moldura.

O fundo é um abismo púrpura.
Cor de carne sem sangue, de coração paralisado.
As luzes laranja parecem olhos de vigia:
estão todos sob supervisão.
Ninguém é visto. Mas todos são vigiados.

É uma assembleia fúnebre,
mas não de corpos.
Aqui, celebra-se a morte da singularidade.
Cada um troca o nome por um crachá.
O rosto por uma senha.
A voz por um “sim, senhor”.

Neste instante imóvel da imagem,
um ritual se repete pela milionésima vez:
o sacrifício do eu no altar do aceitável.
E em silêncio, todos aplaudem a performance da obediência.

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